CAPÍTULO 4: UM DIA E UMA NOITE EM DEZEMBRO

vistaerro  

Saí da casa de Jordélio, deixando meus companheiros de infortúnio cinematográfico na companhia do sono pós-almoço. Lembro que naquele dia trinquei um dente no feijão, preparado segundo os ritos fraternos rústicos, pelas mães camponesas; considerei isso como um lembrete da realidade tipo Brasil profundo desmistificado. Fazia muito calor e as moscas zuniam, furando o manto da preguiça que se instalara. Caminhei pela terra batida até deixar a agrovila 3 para trás. Olhei.

Uma oscilação  na paisagem se insinuava, querendo me abraçar. Desviei-me pensando: que foto mais óbvia! Não, me recuso ao clichê! Olhei de novo. Agora a paisagem sorrateira cantava para mim; nuvens de sombra alisavam os morros, e o sol, morto de ciúmes, estragava a brincadeira com seu calor luminoso. Refleti sobre isso aos pés do limoeiro: talvez a questão não fosse ciúmes, quem sabe não se tratava de um relacionamento a três, uma certa promiscuidade da paisagem? Motivado por essa idéia, trepei no limoeiro, desviei-me dos espinhos e fiz a primeira imagem. Assim começa meu bacanal kinok com as imagens.

Já em casa, espremi alguns limões que colhi e fiz uma caipirinha com a pinga de alambique. Caiu a noite e lá da casa do Jordélio, escutamos um xiquexique nheque-nheque que vinha do boteco da vila. Estava na hora do gigante adormecido acordar de seu berço esplêndido e pegar na viola.

A bruxa desdentada do cinema, percebendo a emergência da vida, afiou seus dentes e armou-se com seus DV’s, booms e DAT’s. Fomos devidamente salpicados de genialidade hierárquica enquanto fechávamos portas e janelas. O cãopitalismo, nosso mascote, abriu passagem até o boteco que nesse momento já estava apinhado de gente brasileira curtidora de viola apaixonada.

Estendemos nossos tentáculos; peguei na vara microfonada e meti-a no meio do fuzuê caipira. Mais uma vez nossa grosseria quase acabou com tudo. Havia porém algo no ar que era mais forte que a sétima “arte”. Tinha gosto de doce de abóbora, cheiro de amanhecer, cabelos de chuva, mãos de colheita, olhos de criança espoleta e o som que fazia multiplicava sorrisos nos lábios de quem ouvia. Até nós, pequenos noviços comensais da magia da bruxa, sentimos que essa magia era nada frente a essa arte mística. Nossos instrumentos, nosso conhecimento e nossa arrogância eram só de mentirinha; comprada no sacolão de verdades do  mágico de OzUSP.

As modas de viola se seguiram, causos foram contados e os copos, antes cheios, ficaram vazios. Naquela noite não discutimos estética nem narrativa, deitamos sob o luar e observamos as estrelas. Um arco delas, uma poeirona delas, um exagero sem dúvida! Nosso diretor sentiu medo, pensou tratar-se de uma assombração, mas era só uma vaca que pastava ali por perto.

Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário

Projeto Movimento no Ar

Resumo

Quase na virada do milênio, cantadores gravam CD com músicas caipiras em rádio comunitária, com a ajuda de pesquisadores, estudantes e participantes do Movimento Sem Terra, na região de Itapeva, interior de São Paulo, fronteira com Paraná.

O Projeto Movimento no Ar

Quase na virada do milênio, cantadores gravam CD com músicas caipiras numa rádio comunitária.

A Rádio Camponesa divulgou durante uma semana o dia em que as gravações seriam realizadas e convidou todos os cantadores dos seis assentamentos da região de Itapeva (SP) para participarem.

Além disso, a equipe de produção – composta por pesquisadores, estudantes e participantes do Movimento Sem Terra -, foi pessoalmente em todos os assentamentos para chamar os cantadores conhecidos pelos camponeses para registrarem suas canções.

As músicas foram gravadas no Programa Domingo Alegre, num domingo de manhã, contando com a presença dos cantadores e de suas famílias.

Um ano depois, em 2001, o CD foi lançado na sede dos assentamentos e da Rádio Camponesa, num show com cantoria e baile, que reuniu a comunidade.

Também foi inaugurada uma exposição de fotos produzidas durante o período de gravação do CD, que retrata a paisagem dos assentamentos, o cotidiano dos camponeses e o projeto de registro da cultura popular que foi desenvolvido ali.

As fotos, as músicas, os eventos de gravação e lançamento do CD se configuraram como uma corajosa e necessária conquista de um espaço para a cultura popular, decorrente da conquista da própria terra para sobreviver.

Para ouvir todas as músicas caipiras que foram gravadas, clique aqui!

Movimento+no+ar capa

 

Para baixar o álbum completo, clique aqui.

Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário